Contextualização Missionaria
Contextualização Missionária
A palavra “contextualização” soa bonito em português. Logo entendemos o sentido: “contexto”, “dentro do contexto”, “adaptação ao contexto”, “processo de se entender com o contexto”. A facilidade da palavra, no entanto, é enganosa, pois não existe uma definição certa. O dicionário Aurélio não traz nenhuma menção da palavra, e os vários livros e artigos que tratam do assunto põe nela significados diferentes e particulares. Por isso falamos de “contextualização missionária”, “contextualização cristã” ou “bíblica” para realmente distinguir nossa intenção do uso da palavra no contexto evangélico e missionário.
Definições
“Contextualização” foi usada pela primeira vez em 1972 por Shokie Coe, diretor da Fundação de Educação Teológica (FET) do Concílio Mundial de Igrejas. Enviou uma carta aos seminários e institutos bíblicos ao redor do mundo oferecendo ajuda com literatura e outros meios para que as escolas de educação teológica pudessem “contextualizar” os seus programas. Para ele “contextualizar” era fazer a Palavra de Deus, que a Bíblia apenas contém se tornar relevante no contexto. A ênfase da FET era o contexto em que a Bíblia deveria se adaptar. Esta relativização bíblica já tinha larga aceitação no meio das igrejas conciliares, mas foi rejeitada pelos evangélicos. A palavra “contextualização”, porém, foi aceita e desenvolvida.
O primeiro evangélico a usar a palavra contextualização foi Byang Kato, um líder africano. Na sua palestra em Lausanne I (1974) ele enfatizou a necessidade de transmitir o evangelho em termos relevantes à cultura receptora, ao mesmo tempo cuidando para não fazer sincretismo. Ele estava preocupado com o perigo da contextualização criar uma distorção do evangelho e da teologia. Cultura é importante, mas na transmissão da verdade a mensagem e sua aplicação prática têm que ser fiéis à Bíblia.
A cultura tem que se adaptar à Bíblia e não vice versa. Por isso Kato apresentou dez fundamentos para a contextualização na África.
1. Deve-se permanecer com os pressupostos fundamentais do cristianismo histórico.
2. Deve-se expressar cristianismo no contexto africano, deixando que o julguem. Não devemos permitir que a cultura tenha precedência sobre cristianismo.
3. Devem-se ensinar as Escrituras e as línguas originais para que eles possam fazer uma exegese correta da Palavra de Deus. O africano também pode aprender hebraico e grego.
4. Devem-se estudar as religiões não-cristãs, lembrando que é secundário, como foi para os evangelistas no Novo Testamento.
5. Deve-se fazer evangelismo agressivo, não repetindo os erros dos líderes da igreja africana do 3º Século, quando se envolveram demais em discussões doutrinárias.
6. Devem-se formar organizações baseadas naquilo em que concordam. Não deve ser “unidade, seja a qualquer preço”.
7. Devem-se definir termos teológicos para evitar sincretismo.
8. Devem-se combater cuidadosamente os sistemas não bíblicos que estão entrando nas igrejas.
9. Deve-se envolver em ação social, mas não às custas da evangelização. Conversões verdadeiras resultam em cristãos que revolucionam as suas sociedades.
10. Deve-se saber que a África precisa dos seus Policarpos, Athanasiuses, e Martinhos Luteros que estão prontos a defender a fé, seja a que preço for.
Após o momento histórico do Lausanne I, o termo contextualização alastrou-se tanto em círculos evangélicos, como na Teologia da Libertação, na Igreja Católica Romana, em outros movimentos nacionalistas e, no presente momento, até no mundo secular. Cada grupo adotou a palavra e usa-a conforme seus objetivos e motivos.
A definição e preocupação de Byang Kato, no entanto, ainda serve como uma base para a avaliação do uso do conceito de contextualização entre evangélicos.Kato e outros missiólogos evangélicos adotaram a palavra em grande parte para expressar a necessidade da transmissão relevante da Palavra de Deus sem abrir mão da sua veracidade e aplicabilidade em todas as culturas. Hoje em dia temos muitos recursos que nos ajudam fazer o processo de tornar os ensinamentos da Bíblia claros e relevantes às pessoas em outros contextos. Nos últimos anos muitos livros e artigos foram escritos sobre a contextualização e as escolas de missões estão incluindo este assunto nos seus currículos. O ano passado 52 missiólogos foram convocados pelo Comitê de Lausane para discutir sobre contextualização. O editor da revista de Lausanne Word Evangelization descreve a palavra assim:
Contextualização deve ser uma atitude de interdependência, crendo que nenhuma cultura pode enxergar seus próprios pontos cegos e que cada cultura tem algo a oferecer para todas as outras culturas.
Contextualização é também um verbo: Uma comunidade de crentes ouvindo, compartilhando, aprendendo e reprovando uma a outra pela possibilidade de descobrir um entendimento mais profundo do evangelho do reino (World Evangelizations. Nº 80. Setembro/outubro de 1997).